Os carreiros do Douro (2)

Na sequência do post anterior...

António Luís Pinto da Costa, na sua obra «Alto Douro – terra de vinho e de gente» (Edições Cosmos, Lisboa, 1999), escreve que

«(…) Os cascos eram transportados pelas empinadas veredas e calçadas alto-durienses em carros de bois, especialmente concebidos para essa função: o cabeçado era ligeiramente encurvado para cima para não estrangular os animais nas descidas; o chedeiro não tinha soalho, ficando com as travessas à vista para ser mais leve; as chedas, levemente encurvadas para dentro, prologavam-se para além da última travessa do leito, para que nelas pudesse assentar-se, atravessado, um pipo de vinho, o penso dos bois ou o que fosse preciso para a viagem; as rodas, embora de madeira, tinham amplos espaços vazios e reforços de grandes pranchetas de ferro (meias-luas ou seitoiras), para se tornarem leves e resistentes; as molhelhas, feitas de couro e forradas a pano vermelho protegiam a cabeça do animal: o chiadoiro do eixo nas treitoiras insensibilizava o animal que puxava para outros barulhos e, segundo a voz do povo, afastava os lobos e os espíritos maus; ao pé do tesão, havia um espaço vazio, formando uma caixa (tabuleiro) para o boieiro guardar a comida.

A partir de 1925, a camioneta de carga começou a fazer concorrência ao vestuto carro de bois. Dada a feição ladeirenta do solo e a falta de bons caminhos vicinais, as veredas e atalhos continuaram a ser exclusivo seu ainda por algumas dezenas de anos (…).

À frente, ao lado ou atrás do carro, seguia o carreiro, de aguilhada na mão:

Triste sorte foi a minha
O meu amor é carreiro:
Anda de ‘strada em ‘strada
De ribeiro em ribeiro.

O meu amor é carreiro
Da Régua par’o Pinhão:
Passa uma vida alegre
Com a aguilhada na mão.»


Os carreiros do Douro (1)

Amílcar de Sousa, num artigo intitulado “A vida dos marinheiros do Rio Douro”, escrito em Cheires, freguesia de Sanfins do Douro e concelho de Alijó, em 7 de Março de 1906, e publicado na Illustração Portugueza – nº9 S/d (1906), e do qual publicámos neste blogue alguns três extractos, acompanhados de fotos, afirmava que «Interessante e digna de estudo também a vida trabalhosa dos carreiros do Douro!».

A propósito desta afirmação, publicamos hoje dois postais ilustrados: dois carreiros do Douro a transportarem pipas de vinho para a estação dos caminhos-de-ferro em Vila Real (cerca de 1912), que fica a pouco mais de 100 metros do local onde foi tirada a fotografia, e a imagem da referida estação de caminhos-de-ferro, na mesma altura.



Edição da Casa - M. J. David Guerra . Villa Real
Postal Ilustrado - Fototipia - c. 1912
Reedição dos Serviços Municipais de Cultura - Vila Real, 1999

A vida dos marinheiros do Rio Douro (3)

«Barco rabelo carregado de pipas,
atracando ao cais da Carvoeira, no Porto
«(…) Nos «barcos rabelos» ao passar nas graníticas «galeiras» do «Escarnicha» que, como outras colunas de Hércules, defendem a infortunada «Terra do Vinho» - eis que das «apégadas» grita o «mestre»:

- Bota fora o Frade!

E nisto o moço do barco empunha a «trombeta» e dela tira sons que levados de ribanceira em ribanceira vão ao longe ecoar…

Por detrás da montanha, na margem esquerda, em lugares populosos antigamente, vivem quase em alfobre as famílias da «maruja» do Douro.

Ao ouvirem esse sinal, as famílias dos «marinheiros» ausentes vão postar-se à espreita e mal hão reconhecido os seus, eis que por atalhos, verdadeiros carreiros de cabras, descem até ao rio e os «marinheiros» do barco deixam de remar no «pego» e atracam na praia.

«Barco rabelo» a subir o Douro
em frente ao Porto
E é do abraço dos velhos pais já decrépitos, das mulheres que os filhos trazem ao colo ou das namoradas que ficam chorosas com os lenços a acenar, que os «marinheiros» tiram a energia e arranjam também a fé para lutarem.

O golpe de misericórdia há muito que os quase matou: desde que o silvo da locomotiva despertou este país assinalado, esta privilegiada zona do «Vinho do Porto», que é tanto mais fino quanto melhor ouvir «ranger a espadela».

Os «marinheiros» desafiam com o punho cerrado o comboio que passa veloz contornando os montes em curvaturas do seu caminho de aço; para se vingarem dele que os lesou profundamente, fazem jura cumprida de nunca embarcarem nesse engenho que traz o «demónio dentro». Agarrados ao seu ofício, numa criminosa indiferença a tudo o que não seja o seu «barquinho», são exemplo firme de tenacidade, heróicos no seu labutar constante, apaixonados, vivos, crendeiros e fieis!

E foi com homens desta têmpera, cheios de carácter, inflexíveis e rudes, que Portugal foi grande!»

Amílcar de Sousa - Cheires – Alto Douro – 7-3º-1906
Texto (adaptado à grafia actual) e fotos: Illustração Portugueza – nº9 S/d (1906)

A vida dos marinheiros do Rio Douro (2)



Marinheiros carregando pipas de vinho
no «barco rabelo»

«(…) Atingindo o barco o seu destino, muitas vezes à custa de remos e puxado à «sirga» pelos «marinheiros», ou seja em Riba-Corgo ou Baixo-Corgo, vai um da companha participar a chegada ao lavrador ou ao comissário de vinhos- Pelos íngremes caminhos rústicos, verdadeiros «gorrêtas», descem até ao cais carros de bois a carregarem pipas vazias, que voltam a trazer cheias das adegas.

Interessante e digna de estudo também a vida trabalhosa dos carreiros do Douro!

Reboladas as pipas, cheias do mais afamado e precioso dos vinhos, sobre as pranchas, para o barco, pela «maruja» às ordens do «feitor» - ei-lo ali vai, rio abaixo, ao sabor da corrente, enquanto os «marinheiros» cantam e riem, conversando uns com os outros por meio de cantigas em que o verso é incorrecto e o estilo monótono, mas tão cadenciado e harmónico como o bater das «pás» abrindo em laivos cristalinos a água profunda!

«Barco rabelo» subindo o Douro com pipas vazias
A paisagem é por vezes duma austeridade dantesca! No fundo das ladeiras, nas quais novamente se vai alastrando a vinha, debruçando-se viçosa dos socalcos que se elevam às alturas e onde poisam casas de quinta alvas de neve – as rochas, os fraguedos nus e enegrecidos inspiram por vezes pavor. (…)»

Amílcar de Sousa - Cheires – Alto Douro – 7-3º-1906
Texto (adaptado à grafia actual) e fotos: Illustração Portugueza – nº9 S/d (1906)

A vida dos marinheiros do Rio Douro (1)




«Barco rabelo» subindo o Douro,
em frente à Ponte do «Porto Manso»

«O «barco rabelo» é talvez a última relíquia das primeiras embarcações peninsulares e, pelo seu todo característico, pelo seu aspecto nunca modificado, é porventura ainda o mesmo que os Fenícios construíram quando, nos tempos lendários da História Antiga, demandaram as costas lusitanas e ganharam os rios. O célebre historiador Estrabão refere-se aos «barcos rabelos».

Nenhum outro barco pode navegar o Douro e, se às vezes, nas «barcas de passagem», o tipo fundamental sofre modificações, quer sejam guiadas pelas fortes moçoilas de Avintes, nos arredores do Porto, ou liguem, em Cima Douro, a Beira esforçada a Trás-os-Montes enérgico – a sua configuração não muda, é a mesma, só adaptada a outro fim.

Minguado no verão o Douro que navegam, no Inverno parece um mar; e é por isso que se chamam «marinheiros» aos tripulantes dos «barcos rabelos», reservando o nome de «barqueiros» para os das «barcas» que transportam os passageiros daquém para além Douro.
«Barco rabelo»
atracando ao caes dos Guindaes no Porto

A configuração única do «barco rabelo» tão grande, semelhando uma nau, que às vezes chega a carregar 80 a 100 pipas, é caracterizada pela «espadela», comprido leme ou «rabo» donde tiram o nome e que por vezes tem mais de 10 metros. Move-a o «mestre» ou mesmo o «arrais» que vai nas «apegadas», espécie de andaime superior ao «sagre» que é o verdadeiro cavername e o qual termina na ré, pelo «taburno» coberto onde são guardados os mantimentos. Porém, o que torna mais elegante e mais típico o «barco rabelo» é a sua enorme vela enfunada, semelhando um «papagaio» colossal, que a rude brisa do rio entumesce, fazendo singrar o barco altivamente sobre o talweg, rápido e enrugado, que foge por entre a penedia informe e polida até à barra.

É majestoso então o «barco rabelo» com a sua «maruja» de camisolas brancas, fazendo as manobras, «braceando» a vela às ordens do «imediato», ao som de cantigas alegres e ao deixar o Porto trabalhador, heróico, levando pipas vazias «rio acima», para depois as trazer na volta cheias do mais generoso vinho do mundo!»

«Barco rabelo» subindo o rio em frente a Avintes»
«Barca de passagem» atravessando o rio à rara nas «Caldas do Moledo»
«Barca de passagem» atravessando a margem nas «Caldas do Moledo»
Amílcar de Sousa - Cheires – Alto Douro – 7-3º-1906
Texto (adaptado à grafia actual) e fotos: Illustração Portugueza – nº9 S/d (1906)
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